Motores

“Ganhar as 24h de Le Mans será o colmatar de um trabalho de muitos anos”

Uma das corridas mais emblemáticas do automobilismo está marcada para este sábado e terá transmissão nos canais Eurosport. No dia 19, os motores ligam-se no circuito de La Sarthe e arranca mais uma edição das 24 horas de Le Mans. Filipe Albuquerque e António Félix da Costa serão os dois pilotos portugueses em ação e o Desporto ao Minuto conversou com o atual líder do Campeonato Mundial de Resistência (WEC) na categoria de LMP2 sobre as suas possibilidades de vencer pela primeira vez esta mítica corrida.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Como diz o próprio Filipe Albuquerque, esta é uma oportunidade de ouro para subir ao lugar mais alto do pódio em Le Mans, algo que faria do piloto natural de Coimbra o primeiro português a vencer na categoria de LMP2.

Sem esquecer todo o seu percurso até aqui, Filipe está consciente de que parte como favorito à vitória mas certo de que nem tudo é simples. Em 24 horas muita coisa pode acontecer e o português da United Autosports está ciente disso: são três pilotos a partilhar um carro, são muitas horas de corrida e, por vezes, as falhas mecânicas são uma realidade.

A ausência de público nas bancadas ou o facto de ter António Félix da Costa como rival foram alguns dos temas falados com Filipe Albuquerque em mais uma rubrica ‘Dos 0 aos 100’. Ficámos também a saber algumas curiosidades, como por exemplo… o piloto que o português retiraria da grelha para estas 24 horas de Le Mans.

Em condições normais, se não tivermos azares, nós somos mais fortes que a concorrênciaEm março deste ano disseste-me que tinhas uma oportunidade de ouro para ganhar uma das corridas que mais queres vencer na carreira: Le Mans. Seis meses depois e a dias do início da prova, o sentimento mantém-se?

Sim, sim. Passados seis meses, tudo o que se passou até aqui torna as minhas palavras  ainda mais credíveis. Saber o que é preciso para ganhar, e ganhar, são duas coisas completamente diferentes. É claro que estou mais confiante e quando me propõem um projeto, como foi o caso da United Autosports, sei que tenho uma sorte enorme, uma vez que é uma equipa que tem uma vontade enorme de ganhar e investe muito para que isso aconteça. Agora, ninguém garante vitórias, o que se pode pedir são probabilidades de ganhar e aí nós temos tido muitas e têm sido fantásticos.

Chegas a Le Mans numa espiral de vitórias incrível. Venceste as 6 horas de Spa no WEC, conseguiste uma vitória nas 4 horas de Le Castellet no ELMS. Sentes que com este ritmo só precisas de não ter qualquer tipo de azar?

[Risos] Sim… Concordo, concordo. Acho que não é ser presunçoso, é ser realista. Volto a frisar que a concorrência é feroz, muito boa, mas em condições normais, se não tivermos azares, nós somos mais fortes que a concorrência. Temos andado bem em quase todas as pistas, temos três pilotos acima do resto e uma boa equipa para a troca de pilotos, assim como de pneus. No entanto, isso não garante por si só uma vitória em Le Mans. Há muitos fatores e erros que podem acontecer. Por exemplo, há dois anos, o Paul di Resta cometeu um erro que ninguém estava à espera, acho que nem ele. Íamos acabar no pódio e não acabámos, porém isso é algo que acontece.

O teu melhor resultado em Le Mans foi um quarto lugar…

Sim e deve ter sido com o pior carro que alguma já tive em Le Mans face à concorrência. E deixa-me dizer-te uma coisa que também é importante, é algo que também tenho dito ao meu colega Phil [Hanson]. Neste momento, aparento estar na minha melhor fase em termos de resultados, sem dúvida alguma. Acho que estou no melhor momento desde que vim para a Resistência há seis anos e ganhar cinco ou seis corridas seguidas nunca me tinha acontecido. Todavia, em termos de perfomance pura, sentia-me muito em forma anteriormente. Esforçávamo-nos muito para compensar a falta de andamento do carro e nesse ano [2017] disse ao dono da equipa: ‘Richard, eu nem fecho o pessoal porque não vale a pena. Eu levanto o pé para os deixar passar porque são pilotos que são três, quatro segundos mais rápidos’.

O fazer história, os recordes… isso são coisas secundárias e que massajam um bocadinho mais o egoO facto de poderes tornar-te no primeiro português a subir ao lugar mais alto do pódio em Le Mans, na categoria de LMP2, dá-te uma motivação extra para quereres esta vitória no currículo?

O fazer história, os recordes… isso são coisas secundárias e que massajam um bocadinho mais o ego. Ficaria, sim, orgulhoso por dar a Portugal algo que já merecemos há algum tempo. O Lamy ficou perto de ganhar Le Mans à geral, eu também já estive próximo de conseguir um bom resultado… Temos talento para nos afirmarmos como os melhores do mundo, basta olhar para o António [Félix da Costa] que quebrou agora esse enguiço com a conquista do Mundial de Formula E. Era bom ganhar e era também um sonho de carreira que realizava. Seria o colmatar de um trabalho de muitos anos. É muito fácil cingirmo-nos ao momento de agora mas é algo que vem já de há muito tempo, desde que me juntei aos irmãos Couceiro com 10 anos.

Partes como um dos favoritos à vitória, mas a concorrência não vai certamente facilitar. Entre um dos teus adversários está precisamente o António Félix da Costa, teu amigo e campeão do Mundo de Formula E. Pode dizer-se que vai ser: ‘amigos, amigos… corridas à parte?’

Isso é sempre! Há muito respeito entre nós, mas vamos colocar este cenário de mundo ideal: estou em primeiro e o António em segundo, sei que ele se vai mandar lá para dentro para conseguir a vitória. O segundo lugar não ia contar para nada.

Notícias ao MinutoFilipe Albuquerque no 1.º lugar e António Félix da Costa em 3.º em Lone Stars Le Mans, no circuito de Austin, nos EUA© João Filipe/AdrenalMedia

Este pode também ser o ano em que conquistas o título do Campeonato Mundial de Resistência em LMP2. Uma vitória em Le Mans deixa-te mais perto desse sonho?

Sim, porém as contas do campeonato acabam por ser secundárias. Acho que só penso no campeonato se acontecer alguma coisa e a vitória já não estiver ao meu alcance. Aí sim, penso que teremos de fazer o máximo de pontos para o campeonato. Agora, a partir do momento em que se inicia a corrida, o objetivo vai ser sempre ficar no primeiro lugar.

Le Mans é provavelmente uma das corridas mais emblemáticas da história do automobilismo. Qual é a tua primeira memória desta prova?

É ver os mecânicos completamente exaustos, cheios de óleo na cara depois de terem trocado não sei quantos travões para o carro continuar a andar. Na altura, não percebia nada de corridas de resistência e não sabia como é que era possível estas pessoas estarem tão cansadas. Não sabia o quão cansativo era, e ver também os pilotos a entrarem nos carros quase como zombies e depois andarem bastante rápido naquelas retas todas, durante tanto tempo. Mas a primeira imagem é mesmo essa, a de ver os mecânicos às 10h00 da manhã já completamente ‘rotos’ e ao mesmo tempo cheios de paixão para acabar a corrida, na altura acabar a corrida era por si só um feito. Hoje em dia, com a evolução dos carros, terminar a corrida já é, digamos, um objetivo muito modesto. Ainda assim é algo que nos sai do pêlo, fazer aquelas horas todas.

O facto de a prova se realizar sem público vai tornar a corrida ‘estranha’?

Vai, vai, vai… Este ano, no geral, as provas têm sido um pouco estranhas. Le Mans ainda mais porque é uma corrida com cerca de 250 mil pessoas. Vai notar-se a falta daquele brilho que normalmente a prova tem, mas tento pensar que em casa, a minha família, vai estar toda a ver na televisão. Acho também que com tudo isto do novo coronavírus, as produtoras de televisão têm feito ainda mais para que o espectador que está em casa, e não pode lá estar, tenha ainda mais informação sobre o que se passa na corrida. Acredito que, apesar de tudo, vai ser um bom espetáculo e que as pessoas em casa vão gostar do que vão ver.

Notícias ao Minuto© João Filipe/AdrenalMedia

Se tivesses um ‘joker’ para usar e te dessem a possibilidade de retirar um adversário de pista para facilitar a tua prova. Quem escolhias?

Logo antes do início da corrida? É uma pergunta difícil… Acho que retirava o Anthony Davidson, o piloto da JOTA, colega de equipa do António. Ele é muito bom e acho que o escolheria. Todavia, era um joker difícil porque, entre tantos pilotos, há vários muito bons e eu considero sempre que todos têm possibilidades de vencer, ainda para mais numa prova destas onde muita coisa pode acontecer.

E ao contrário… Se pudesses escolher um piloto bónus para correr na tua equipa nesta prova, quem elegias?

Há tantos bons pilotos, mas acho que o António era o piloto que escolhia. Pela relação que nós temos, pelo facto de não existirem egos entre nós, também, se calhar, para Le Mans ele iria ouvir-me mais. Mas ele anda bastante bem. Até, calhando, partilharíamos o mesmo banco. Era algo que ia facilitar, mas lá está… Há pilotos muito bons, mas é o que acontece com o Phil Hanson. Vou sempre preferir alguém que me ouça e que não queira provar nada. Não quero ninguém no meu carro que queira provar alguma coisa e isso foi até algo que eu disse ao Richard Dean [dono da United Autosports], que me tem protegido sempre muito tanto na Europa como no IMSA.

O desporto motorizado português ganhou uma maior notoriedade e foco com a conquista do Mundial de Formula E por parte do António, com a vitória do Miguel Oliveira no MotoGP… E tu podes agora vencer em Le Mans e também vencer o Campeonato Mundial de Resistência nos LMP2. Sentes que estamos a atravessar o ponto mais alto de sempre no desporto motorizado português? Isto num ano em que pela primeira vez na história o nosso país vai receber a F1 e o MotoGP em simultâneo.

Sem dúvida alguma. Estamos agora a colher os frutos do investimento de há alguns anos. Isso passou muito por eu ter corrido lá fora, pelo António ter corrido lá fora, o Miguel Oliveira também ter investido e ter passado nas escolas todas. Por acaso, calhou estarmos a recolher os mesmos frutos ao mesmo tempo, e depois a coincidência de a pandemia ter dado duas provas ao Autódromo de Portimão. É uma grande coincidência e sorte porque, sejamos francos, é por essa razão que se conseguiu. Se tivéssemos de investir não seria possível. Aliás, é por essa razão que não há nenhum português na Formula 1. Os números são muito elevados. Eu e o António ficámos à porta e não foi por falta de talento, mas agora estamos a passar por um momento de ouro.

Notícias ao MinutoCarro da United Autosports conduzido por Filipe Albuquerque nas 24 horas de Le Mans em 2019© Getty Images

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Noticias ao Minuto

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