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“Merecia muito mais do que recebia e do que o Sporting me valorizava”

Sporting, AC Milan e, agora, Lille. Tiago Djaló viveu ano e meio de puro ‘reboliço’, mas conseguiu, por fim, encontrar o seu espaço, e, logo na primeira temporada em solo francês, disputou um total de 14 jogos, entre Ligue 1, Taça, Taça da Liga e Liga dos Campeões.

A temporada acabaria encurtada devido ao desfecho antecipado do campeonato gaulês, motivado pela pandemia, e o próprio admite ter sentido alguma desilusão, até porque os ‘dogues’ ficaram a apenas um ponto de garantir o apuramento para a prova milionária.

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o defesa-central de 20 anos faz um balanço positivo da primeira época junto dos compatriotas José Fonte, Xeka e Renato Sanches, embora sem nunca esquecer a saída de Portugal.

Tiago Djaló confessa que a falta de reconhecimento que sentiu em Alvalade foi o principal motivo que o levou a deixar o Sporting, e garante que, tão cedo, não equaciona voltar ao país até porque, neste momento, o objetivo é continuar a “subir patamares”.

A decisão de acabar com o campeonato francês foi um pouco precipitada

Como reagiu a este desfecho antecipado da Ligue 1? Acredito que tenha ficado desiludido…

Sim, sim. Ficámos desiludidos porque por um ponto não conseguimos apurar-nos para a Liga dos Campeões, mas as decisões não são nossas. O clube tem que respeitar e os jogadores também. Neste momento, temos que nos focar na próxima época e em ficarmos bem fisicamente.

O L’Équipe chegou a fazer uma capa em que questionava essa decisão e escrevia “Como idiotas?”. É uma opinião que partilha?

Na minha opinião, a decisão de acabar com o campeonato francês foi um pouco precipitada, mas temos que respeitar. Neste momento, não há nada a fazer a não ser assegurar que os jogadores se protegem e preparam para a próxima época.

Custa-lhe agora ligar a TV e ver que os outros campeonatos já recomeçaram?

Sim, obviamente que custa, porque, neste momento, não estamos a fazer aquilo de que gostamos, que é jogar futebol. Claro que temos que nos preocupar com o campeonato, porque queremos competir e jogar, mas, neste momento, com tudo o que estamos a passar, o pessoal devia preocupar-se mais com a saúde. Depois sim, com o futebol. Porque, sem saúde, não há futebol.

Como tem sido a sua vida desde que o campeonato foi dado por concluído?

Tenho treinado, tenho também descansado… Estava à espera que este problema demorasse muito tempo a passar, por isso não quis forçar muito o meu corpo no ginásio. Quis dar descanso ao corpo depois da época que fiz para depois, na pré-época, corresponder bem. Estou bem fisicamente, vamos ver [risos]. 

O Lille tem-vos acompanhado de perto?

Tem, tem. Desde que apareceu o coronavirus e nos deram férias, entre aspas, o clube tem-nos acompanhado sempre.

Vivendo em França, como acha que o país geriu esta crise?

Sinceramente, não tenho bem noção das coisas aqui em França… Mas, com tantas mortes que houve, se calhar alguma coisa não correu muito bem. 

Foi complicado estar em França, longe da família, numa altura destas?

É claro que estou sempre em contacto com a minha família, eles foram-me passando a mensagem do que estavam a fazer, como faziam, etc. Isso acabou por me deixar mais tranquilo. Mas é óbvio que todo o cuidado é pouco. Por muito cuidado que tenhamos, qualquer coisa pode acontecer. Ficava preocupado, mas, quando falava com eles, ficava mais tranquilo.

Esteve agora recentemente em Portugal. Deu para matar saudades?

Estive durante mais ou menos dois meses. Deu para matar saudades e ainda sobrou [risos]. Demorei lá muito tempo, mas não havia muito mais a fazer. A única coisa que podia fazer era desfrutar do momento, estar com a família e os amigos e relaxar.

Notícias ao MinutoTiago Djaló ao serviço do Sporting© Global Imagens

O Sporting não foi justo comigo, nada justo depois de tudo o que fiz pelo clube

Falemos agora do Sporting. Na altura, disse que saiu magoado por não lhe terem sido dadas oportunidades. Mantém esse sentimento?

Está no passado, não me tenho focado nisso, mas é algo em que penso. Há uns meses, saí, e desde que saí é que o Sporting começou, na minha opinião, a apostar nos jovens. Com mais talento do que eu ou não, o futuro o dirá. Fico muito triste, porque sabia que tinha muito para dar ao clube. Umas pessoas tinham noção, outras nem tanto, mas é a decisão de cada um.

Mas consegue perceber essa mudança na gestão do Sporting?

Aquilo que acho é que as pessoas só dão valor quando perdem algo de interessante. O Sporting, com os vários jogadores que tinha na formação na minha altura, podia ter feito muito dinheiro em transferências. Não fizeram, feliz ou infelizmente. A partir daí, com os erros que as pessoas cometeram, começaram a querer corrigi-los com os jogadores que têm na formação. Na minha opinião, nenhum jogador da formação que está na equipa principal neste momento tem a qualidade de um Rafael Leão, um Elves Baldé, um Miguel Luís, um Daniel Bragança… Se bem que o Daniel Bragança ainda é jogador do Sporting. Acho que, atualmente, nenhum jogador tem estofo suficiente para ultrapassar as qualidades dos que saíram na altura em que eu saí. É a minha opinião. A formação do Sporting ainda pode dar bons jogadores. Como disse, as pessoas só dão valor quando perdem.

Se estivesse, neste momento, no Sporting estaria, por exemplo, à frente de Eduardo Quaresma?

Conheço muito bem o Eduardo Quaresma, é um bom jogador para a idade que tem. Mas, obviamente, somos jogadores diferentes. Muito diferentes mesmo. Na altura, eu estava nos sub-23 e penso que já tinha estofo suficiente para jogar na equipa principal do Sporting, mas temos que respeitar as decisões. O Sporting não achou que tivesse qualidade, ou que tinha qualidade mas não a suficiente, e não me colocaram a jogar na equipa principal. Desde que saí, os jogadores são vistos de outra forma, já fazem muitos treinos na equipa principal e aparecem nas capas de jornais. Na minha altura, não era muito assim. Agora, é saber jogar com os que têm. 

Na altura, chegou, inclusive, a dizer-se que recusou ser convocado para um jogo da Liga Europa. É verdade?

Não, não é verdade. Já ouvi falar muito dessa situação, não sei se foi da parte da comunicação social ou da SAD do Sporting. As pessoas de fora, principalmente, não sabem muito bem o que se passa num clube. Não querem saber se vives na rua, quanto é que recebes, se jogas bem e recebes mal… Os adeptos querem que estejas sempre 100% focado no clube, o que é bom, mas quem está de fora não sabe o que se passa lá dentro. Na altura, acho que merecia muito mais do que recebia e me valorizavam, mas não foi assim. Não recusei jogar nem ser convocado para nenhum jogo.

Até estava cogitado para ser convocado. No último jogo da [fase de grupos da] Liga Europa tinham-me dito que até ia jogar a titular, mas… Dias antes, tivemos uma reunião e queriam que renovasse na hora, mas recusei, porque tinha que reunir com a minha família e com os meus empresários. Eles acharam que já estava a querer sair e não me convocaram nem deixaram jogar. Cada um teve que seguir o seu caminho. Acho que o Sporting não foi justo comigo, nada justo depois de tudo o que fiz pelo clube. Não fiz na equipa principal, mas fiz na formação. Ganhei quatro títulos em cinco possíveis, mas nem assim me quiseram valorizar. Hoje em dia, está tudo mais fácil, os jogadores já têm estofo para estar na equipa principal.

Na altura, saiu por cerca de 500 mil euros. Consegue imaginar quanto poderia valer se tivesse sido aposta na equipa principal?

Pois, é o que digo… Quando se tem um produto, tem que se aproveitar o produto. O Sporting podia ter feito muito dinheiro com jogadores da minha geração, mas não conseguiu. Com aquilo que fiz na formação, se calhar não podia valer muito mais, mas se tivesse algum jogo na equipa principal ou se tivesse aquela visibilidade que os jovens estão a ter agora… Sem jogar na equipa principal, valeria muito mais do que o valor pelo qual fui comprado. As pessoas também têm tendência de não valorizar muito o que se faz na formação, e aí existe logo um erro. Para poderes ser um jogador de alto nível, tens de começar por baixo, passo a passo, e a formação é algo que te pode ajudar a crescer. Mas as pessoas não valorizam muito.

Tinha muitos clubes interessados. Barcelona, Lazio, Manchester United, que é o meu clube do coração…

Quando saiu, o AC Milan foi a única opção ou havia mais clubes interessados?

Tinha muitos clubes interessados. Não tenho problemas em dizer que tinha Barcelona, Lazio… A Lazio era o clube pelo qual estava a pensar assinar, mas à última hora decidi ir para o AC Milan. Tinha o Manchester United, que é o meu clube do coração, o Manchester City… Tinha vários clubes e estava tranquilo. Eu, sinceramente, queria ficar no Sporting, mas as condições não ajudaram. A forma como me iriam valorizar também não ajudou, por isso concluí que teria que ver outra situação. Isto mesmo sabendo que sair para jogar no estrangeiro é sempre um risco, por causa da língua… Não era por causa da qualidade, porque, se fosse só por isso, acho que poderia estar na equipa principal do AC Milan. Tinha que arriscar por algum sítio. É claro que não iria para um clube inferior ao Sporting, porque não tinha medo de arriscar. Um jogador como eu, confiante, com o talento que tenho, acho que era a única solução possível. 

Que balanço faz do ano em Itália?

Foi uma época positiva. Na pré-época, estava à espera para saber se fazia parte da equipa principal, estava confiante. Acho que tinha estofo para jogar na equipa principal, mas as pessoas têm que respeitar as opiniões. Queriam-me lá, mas se calhar seria a última opção. Eu queria jogar, com a qualidade que tinha não dava para ficar muito tempo no banco, por isso tinha que procurar outras soluções. Vim para o Lille e fiz 14 jogos. É um bom começo. Este ano ainda tenho muito para dar. Aquilo que mostrei não é nada.

Diz-se que o futebol italiano é uma escola para os defesas. Sentiu isso?

Sinceramente, aprendi mais vendo os jogos de outras equipas do que, por exemplo, com o meu treinador. Estava na segunda equipa, na equipa Primavera, e, na minha opinião, era o jogador mais experiente, com mais jogos. Aquilo era tudo básico para mim. Estava com a mentalidade de jogar como em Portugal, sair a jogar, não ser tão agressivo… Tive que me habituar ao futebol italiano. O futebol português não cabia naquela equipa nem na Liga. Comecei a ser um pouco mais italiano no sentido de jogar na tática deles, mas, quando tinha a bola nos pés, já me sentia muito bem. Tive que mudar um pouco, mas, taticamente, não aprendi tanto.

Foi devido a essa mentalidade que foi mais fácil chegar ao Lille e impor-se?

Essa paranóia de gostar de pegar na bola, sair a jogar e driblar os avançados foi alimentada desde que comecei a jogar no Sporting. Sempre fui esse central. Não gosto de ser um central simples. Obviamente que ser simples e bom jogador é melhor do que não ser simples e mau, mas, arriscando e jogando o futebol que jogo, acredito que posso evoluir. Tento, cada vez mais, ser melhor, e não penso que tenha sido por isso que cheguei ao Lille.

Não gosto quando as pessoas dizem ‘O Djaló errou, mas é normal porque tem 20 anos’

Esperava chegar e ser aposta tão rapidamente?

Não, porque os jogadores da minha posição já tinham feito história no Lille com o apuramento para a Liga dos Campeões. Tive a sorte de um dos centrais se ter lesionado. Na altura, tinha várias propostas, como do Bordeaux. Sabia que nos dois clubes ia ter que esperar pela minha oportunidade, mas, quando soube que um dos centrais do Lille se tinha lesionado, e era o único disponível além do José Fonte, sabia que seria aposta, que vinha e jogava. Agarrei as oportunidades e fiz bons jogos, mas depois perdi a posição.

O facto de o Lille ter tantos jogadores portugueses ajudou na adaptação?

Foi só mesmo nos primeiros meses. Não que não quisesse saber da opinião das pessoas, mas tive de pensar um pouco em mim. Por exemplo, acreditar mais nas minhas capacidades do que ouvir o que os outros dizem que tenho que fazer. Claro que captava a opinião deles quando tinham razão, mas também ia muito pela minha opinião. Quando tomo uma posição, é porque tenho a certeza que vai correr bem. Nas duas primeiras semanas tive que ouvir muito o Fonte, que já estava aqui e tinha experiência, mas depois foi tudo natural.

O José Fonte costuma dar-lhe muito na cabeça?

Sim. Um jogador como ele, português e capitão, também é obrigado a fazer isso. Por vezes, sendo mais novo, sei que também tenho razão nalgumas coisas e dou-lhe na cabeça [risos]. É sempre bom ter uma ligação, mesmo sendo mais novo. Hoje em dia, as pessoas têm a tendência de dizer que um jogador experiente é um jogador que têm muita idade ou muitos jogos, mas acho que não é bem assim. Vejo muitos jogadores considerados experientes que cometem muitos erros. Não se considera, por exemplo, a experiência de um jogador de 20 anos. Não gosto quando as pessoas dizem ‘O Djaló errou, mas é normal porque tem 20 anos’. Se hoje em dia já jogo contra PSG, Valencia, etc, quero que me tratem da mesma forma que tratam, por exemplo, o Fonte, que tem 36 anos e muitos jogos. Tenho noção daquilo que tenho que fazer em campo, agora, se faço bem ou não, já é outra coisa. Não é justo caraterizarem um jogador pela juventude.

Dos portugueses com quem joga, o Xeka é o que está há mais tempo. Já lhe ensinou a falar francês?

Não, não. Nós temos aqui uma professora portuguesa que fala francês, e eu próprio costumo estudar numa app que uso, o Duolingo. Foi assim que aprendi a falar inglês e italiano antes de ir para o AC Milan. Vou estudando, aprendendo. Já não estou assim tão mal [risos].

E como tem sido trabalhar com Renato Sanches? Ele parece ter chegado a França com vontade de mostrar que ainda tem muito para dar depois de todas as críticas.

É um bom jogador, como todos sabemos. No futebol, é normal receber críticas, mesmo quando estás bem. Nem toda a gente vai gostar do que fazes ou de quem és. O Renato teve bons momentos, mas também maus momentos. Acho que faz muito bem em querer mostrar às pessoas o jogador que é. Um jogador com a qualidade dele deve pensar em outros palcos e outros clubes. A atitude dele tem sido boa.

Quando se prepara para entrar em campo e sabe que vai ter pela frente jogadores como Neymar, Mbappé ou Icardi, mexe consigo?

As pessoas que me conhecem bem sabem que sou um jogador muito confiante. Não vou dizer que acontece com qualquer um, mas por mais que venha um jogador de qualidade contra mim e que eu saiba que terei que o enfrentar várias vezes, não sou um jogador que treme ou se assusta. Até me dá mais confiança. Acho que, nos jogos difíceis, até dou mais do que em jogos normais. O que é mau [risos], porque tenho que estar a um nível alto em todos os jogos.

Notícias ao MinutoO defesa-central pelas camadas jovens da seleção portuguesa© Global Imagens

Se estiver no meu auge, a oportunidade na seleção não demorará muito tempo

Que objetivos tem para a próxima época?

Quero fazer o maior número de jogos possível e marcar golos, que é uma coisa que não faço muito. Quero fazer uma boa época e ganhar, no mínimo, um título.

Numa altura em que temos jogadores mais velhos na seleção, como José Fonte, Bruno Alves ou Pepe, sente que a chamada também pode não demorar muito?

Já pensei mais nisso na altura em que jogava a titular no Lille. Mas também sei que sou jovem e tenho muito que aprender. No entanto, se estiver bem este ano, no meu auge, a oportunidade na seleção não demorará muito tempo. É questão de trabalhar, porque acredito que tenho qualidade e estofo para ser convocado.

Há pouco dizia que o seu clube de coração é o Manchester United. Costuma fazer as contas de quanto tempo demorará para lá chegar?

Não. Quando era mais novo, há dois anos ou há ano e meio atrás, pensava sempre que podia estar bem e, dentro de meses, ter uma proposta de um clube que gosto, como o Manchester United. Mas agora já não penso muito. Desde logo porque penso melhor do que pensava antes. Para poder chegar ao 10, tenho que passar pelo 1, pelo 2, e assim sucessivamente. Tenho que dar passos pequenos, e não maiores do que a perna. O trabalho é o mais importante, e depois o que tiver que vir virá naturalmente. Até porque, muitas vezes, é assim que os jogadores se estragam, com a ganância de querer ir para um clube maior ou receber muito mais. Aquilo que tenho que fazer é trabalhar e esperar pelo que vem.

E vê-se a regressar a Portugal um dia?

Para já, não. Agora é sempre a subir de patamar. Não vou dizer que, daqui a um ano, não volto. Não sei o dia de amanhã, mas, da maneira que as coisas estão a correr, terá que ser sempre a subir. Portugal vai ficando cada vez mais para trás.

Continua a acompanhar o futebol português?

Sinceramente, não acompanho muito, porque há muitas coisas que me deixam stressado. Prefiro nem ver os jogos em Portugal. Se dissesse aquilo que acho, as coisas não vão agradar a muita gente. Vejo um FC Porto-Sporting, um FC Porto-Benfica e jogos assim grandes, mas os outros não. 

Mas por que diz isso? Por causa do ruído em torno do futebol?

Não… Prefiro nem falar disso. É aquilo que se faz em Portugal. A forma como se tratam uns clubes em detrimento de outros, as arbitragens, etc…

Daqueles jogadores com quem jogou nas camadas jovens do Sporting, qual acha que pode chegar mais longe?

É uma pergunta muito difícil… Pela qualidade, não saberei dizer, mas pelas qualidades físicas e mentais, pelo profissionalismo, considero o Daniel Bragança um jogador fora de série. Era o jogador em quem sentia mais confiança quando jogava no Sporting. Vai dar muito que falar. Neste momento, já poderia estar a dar muito que falar, e não era no Estoril. Todos eles podem triunfar, mas tenho a certeza que ele o fará.

Via
Noticias ao Minuto

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