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“Desde vidros partidos a invasão de adeptos com sabres, tudo se passou”

Francisco Chaló dispensa grandes apresentações para quem segue atentamente o futebol português. O experiente treinador de 56 anos passou por diversos clubes da I e II Liga nos últimos anos, mas apenas no verão de 2018 arriscou dar o salto para o estrangeiro, mais concretamente para a Argélia. Ao serviço do Paradou, Chaló fez história durante duas épocas, admitindo agora ser hora de encerrar o ciclo no futebol argelino. 

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o treinador português revela estar preparado para outros objetivos e não descarta um regresso a Portugal pela porta do máximo escalão. 

Francisco Chaló destaca também as qualidades que encontrou nos jogadores argelinos e recorda os vários talentos que treinou na II Liga e que têm dado nas vistas, por fim, na I Liga. 

Resta fazer contas desta época e, calmamente, pensar no próximo projeto

Com o campeonato interrompido devido ao Covid-19, quais as perspetivas futuras?

Na altura que me entrevista, tenho a plena convicção que o campeonato argelino não vai retomar. Recebi a informação, ainda não formal, que não estão reunidas condições para acabar esta época. Algo que se pode compreender, pelo contexto em todas as vertentes, mas que, no nosso caso, deixa um misto de sensações devido ao que estávamos perto de atingir. Éramos a equipa com mais jogos a disputar (dois em atraso) e estávamos a um ‘passinho’ de bater mais uma marca no clube: atingir as meias-finais da Taça da Argélia. Em função disto, e digo em primeira mão, resta fazer contas desta época e, calmamente, pensar no próximo projeto, seja ele onde for, até porque estando em final de contrato isso é algo que passarei a pesar nas opções plausíveis.

De que forma esta pandemia vai mudar o futebol?

O futebol é parte de um todo e não vive dissociado de nada. Aliás, convém referir, foi na pandemia uma das atividades que mais alertou para tudo o que se passava, tomando medidas céleres e drásticas. Em relação aos efeitos no pós-pandemia, do meu ponto de vista, podem existir consequências diretas e indiretas. As primeiras, resultam nos efeitos desportivos que afetam rendimento, observação e crise implícita global, levadas, até, em conta no lado emocional e de confiança. As ditas indiretas, advêm de medidas não proativas no sentido da regulação de qualquer espécie, mas de aproveitamentos múltiplos, algo que se passa igualmente noutros setores.

Que balanço faz desta experiência no futebol argelino?

Extremamente positiva em todos os capítulos. Que mais pode um treinador desejar que bater todos os recordes de um clube? Alcançar, nas provas internas, a melhor classificação de sempre no campeonato e alcançar os quartos de final da Taça era já muito bom. Participar na CAF – estreia absoluta do clube e de todos os jogadores – eliminando clubes africanos históricos e alcançar a fase de grupos foi ainda mais surpreendente. Acrescentando uma valorização ímpar de ativos, com vendas extraordinárias de atletas é algo a que se pode apelidar de… pacote completo. Mas, sinceramente, algo que me orgulha e preenche foi o reconhecimento da forma de jogar. Neste capítulo, tendo estado uma equipa técnica espanhola no clube nos anos anteriores, sentir que algo foi notado nos vários aspetos do jogo, colocando a equipa mais jovem da Argélia (21 anos de média), sem contratações, sem campo próprio, sem adeptos e com o orçamento mais baixo do campeonato a lutar com os melhores, é motivo de orgulho. Mesmo culturalmente, foi uma aprendizagem enorme que me preparou e internacionalizou em todos os capítulos. Numa sociedade fechada e avessa ao que vem de fora, ser bem acolhido e convidado a falar de futebol, com questões para saber como se trabalhava, foi deveras gratificante.

Quais as principais diferenças face ao futebol português?

O futebol africano encerra, em si próprio, características ‘sui generis’ e a Argélia não foge a esse paradigma. A cultura, enfim, tudo é diferente e, apesar de tudo, num futebol duro e muito competitivo. Atenção, existem equipas com orçamentos parecidos a equipas até ao quarto lugar do campeonato português e os argelinos adoram o futebol. Em termos organizativos têm as suas lacunas, até mesmo na calendarização está patente, com dificuldade na organização dos micro ciclos, em função disso mesmo, principalmente para nós, que gostamos de organizar tudo ao pormenor. A observação dos adversários é uma missão muito difícil, devido à falta de meios e impedimentos regulamentares nas filmagens, por exemplo. Tive que alterar muita coisa transversal a tudo, sendo tática e fisicamente um trabalho aturado para chegar a níveis de jogo compatíveis com o modelo. Deu trabalho, mas sorrimos no final.

O futebol português já foi palco de vários jogadores argelinos que se revelaram acima da média: Slimani e Brahimi… Há muitos jogadores com esta qualidade atualmente na Argélia?

Sim, alguns têm essa capacidade. O ano passado consegui isso, por exemplo, até com jogadores a alterarem a sua posição no terreno de jogo. Mas, sinceramente, alguns têm essa capacidade e, sem espanto, este ano mais um ou outro podem dar o salto. O jogador argelino com potencial é, geralmente, técnico e com velocidade. Por conseguinte, predicados que o futebol atual exige em qualquer parte do mundo. É preciso, somente, paciência e perseverança para lançar jovens.

Os jogadores sentiram muitas diferenças na metodologia do treino e do jogo?

Bastante. Foi algo que tive de enfrentar e tornear em doses industriais. Depois da análise preliminar, lógica, cedo me apercebi do que teria de fazer para potenciar o que estava nas mãos. Com o diagnóstico feito, o mais exaustivo possível, passei às ações programáticas de forma a, paulatinamente, chegar onde achava ser possível eles chegarem. Codificados, durante vários anos, num sistema e numa forma de trabalhar e verificando a matéria-prima ao dispor, tracei um caminho que, na primeira fase, acredite, foi deveras difícil. A intensidade no treinar e jogar, a compreensão das funções individuais e setoriais, o pensar de forma distinta ao hábito instituído, foram barreiras que, muitos, pensavam não ser possível. Hoje, a semente está lá e acreditam no que se disse, porque tudo o que se falava foi acontecendo. Por isso mesmo, penso que o clube , comigo, cresceu o máximo. Para crescer mais, algo tem de mudar. 

Desde pedras e vidros partidos do autocarro a não conseguir que a equipa entrasse no balneário e sofrer invasão de adeptos com sabres no mesmo, tudo se passou

Soube que passou por uma situação em que teve de enfrentar adeptos adversários. Quer contar esse episódio?

Bem, isso dava um filme. Desde pedras e vidros partidos do autocarro, antes do jogo começar, a não conseguir que a equipa entrasse no balneário e sofrer invasão de adeptos com sabres no mesmo, tudo se passou. Mas, da mesma forma, enfrentamos com coragem e determinação tais acontecimentos fazendo valer o que somos. Eles admiram, também, a coragem dos outros.

Ambiciona regressar a Portugal e ter nova oportunidade na I Liga?

Portugal sempre esteve e estará no meu horizonte para trabalhar. Já treinei tudo e faltava uma experiência internacional que, acho eu, passei com distinção na I Liga argelina, deixando portas abertas para técnicos portugueses. Por isso mesmo, agora, vou concentrar-me no que poderá ser o próximo desafio e se for em Portugal melhor ainda. Acho que tenho um trajeto que me permite sonhar com coisas bonitas e todo foi feito a pulso.

Notícias ao MinutoFrancisco Chaló em ação no Paradou, imagem que já não se deve repetir. © DR

Lançou vários jogadores, como Davidson e Adriano Castanheira, nos quais fica a sensação de tardia a sua chegada ao primeiro escalão. O que acha que lhes faltou para chegarem à I Liga mais cedo?

Sim, é verdade. São casos diferentes, mas aconteceram no mesmo clube, o Sporting da Covilhã. O Davidson, observei em vídeo dois jogos e aconselhei a sua contratação. Recordo que disse ao presidente José Mendes: “Este é de outra casta”. Teve uma adaptação boa e ouviu sempre os conselhos. O Adriano, era um jovem com um potencial técnico incrível, precisava de maturação mental para desenvolver o seu jogo e, depois de se libertar, apareceu a dar cartas. Mas, felizmente, deixe-me dizer-lhe, tenho conseguido isso ao longo dos anos, tal como aconteceu na Argélia. Por onde tenho passado, e de forma invariável, a valorização e otimização de ativos, mesmo que não reconhecidos na altura, tem sido uma constante. O Xeka [agora no Lille], por exemplo, foi um dos casos que ajudei a que fosse o jogador que é, pois, provavelmente, se não fosse a minha teimosia tinha-se perdido um grande médio. Mas existem muitos mais que passaram e que se passou o mesmo: Rúben Ribeiro, Cris, Paulo Oliveira, Michel, Sandro Lima, Gregory, Paulo Lopes, Adilson, Diego Ângelo, Marcelinho, Godemeche, Traquina, Zé Tiago, Tiago Moreira, Hichem Boudaoui, Naidji e Adem Zorgan. Muitos chegaram ao futebol profissional e depois deram o salto.

Qual foi o jogador que mais impressionou pela capacidade de trabalho e talento?

A pergunta envolve duas características e nem sempre estiveram juntas. Mas tive alguns que se diferenciaram de outros, como é natural. Não gostaria de particularizar, mas vou dar um exemplo que me parece importante para qualquer atleta: Michel. Estava no Penafiel e era um talento puro. Consegui rentabilizar essa parte, durante algum tempo, embora lhe faltasse capacidade de trabalho. Ainda chegou ao Benfica, mas o talento, quase sempre, não chega…

O FC  Porto foi quem menos errou e quem melhor aproveitou os erros dos outros

Como viu esta época atípica em Portugal? Considera que o FC Porto foi um justo campeão?

Desde que o futebol existe, nunca se viveu algo parecido. Tudo foi diferente, contudo, tudo foi igual para todos. A questão fundamental é que, nem todos, perceberam que não era o mesmo campeonato que se jogava, mas um campeonato de 10 jornadas ao estilo Campeonato do Mundo. Logo, como todos podemos verificar, as questões académicas do jogo e teóricas, não têm muito tempo para serem jogadas. As volitivas, sim. Estas, em provas curtas, revelam-se determinantes e sobrepõem-se a muitos aspetos. Com crises atípicas de personalidade de jogo, que assolaram as equipas ditas mais fortes, atravessando todas resultados negativos, eis que a parte volitiva do grupo foi a questão socio desportiva que melhor funcionou. Em conformidade com tudo isto, o FC  Porto foi quem menos errou e quem melhor aproveitou os erros dos outros, sendo um justo vencedor.

Via
Noticias ao Minuto

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